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29.4.10

Causas e efeitos do alcoolismo na terceira idade

Você já viu campanhas contra o alcoolismo para jovens? Provavelmente, muitas. E com relação a uma campanha para alertar os idosos sobre o perigo que o estrago representa para a sua saúde? É quase certo que nenhuma. Esta falsa premissa de que o álcool é um tema preocupante apenas para a juventude e não para os idosos, pode estar provocando uma epidemia silenciosa entre esse segmento da população.

Essa falta de atenção com o alcoolismo na terceira idade está resultando em diagnósticos equivocados, que podem ser origem de futuras e graves complicações. Enquanto os meios de comunicação alertam o povo acerca do consumo abusivo do álcool entre os jovens, a verdade é que o próprio sistema não está preparado para detectar facilmente as pessoas idosas que ingerem bebidas etílicas de forma exagerada.

CAUSAS

O consumo de álcool na terceira idade está relacionado a transtornos físicos evidentes e com o agravamento do problema será inevitável que se tomem medidas urgentes, enquanto ainda é tempo. Esses idosos são mais reservados na hora de relatar seus excessos com esta droga, além do que os médicos desconfiam menos dos idosos do que da gente jovem.

Em conseqüência, esse controle para os idosos é muito mais difícil. Fatores sócio demográficos e outros também podem influir para que um idoso abuse do álcool: violências, abandono, isolamento, depressão, outras doenças, dificuldades econômicas, etc.

As tabelas em uso para avaliar se uma pessoa é alcoólatra ou não deveriam aplicar-se às pessoas idosas. Não é razoável admitir que o metabolismo próprio do idoso não afeta a absorção do álcool. Na realidade nesta idade o organismo se torna mais sensível a essa droga. Dessa maneira, quantidades equivalentes de álcool provocam maiores efeitos físicos e psíquicos em idosos.

Geralmente os idosos não tem problemas legais, sociais e profissionais que limitem ou impeçam o consumo de bebidas alcoólicas, apesar de sofrerem danos muito mais sérios do que os jovens. De fato o Instituto Nacional do Alcoolismo e Abuso do Álcool (NIAAA), norte americano, recomenda que não se deve ingerir diariamente, mais de uma bebida alcoólica, a partir dos 60 anos.

Outro ponto importante para diagnosticar corretamente esse tipo de pacientes é contextualizar seu consumo, ou sua vida alcoólica, em outras palavras. Sendo um grande bebedor ou não, disso dependerá que se descarte ou solidifique certas impressões do especialista que estuda o paciente.

EFEITOS

O consumo de álcool por idosos se relaciona geralmente com problemas físicos, psicológicos e mentais (memória, aprendizado, etc). Também leva a uma maior tendência a ficar doente (morbilidade), ter uma pior imagem de si mesmo (auto-estima), fazer mais visitas ao médico, apresentar transtornos depressivos, ter menos satisfação com o(a) parceiro(a) e menos relações sociais do que os abstêmios.

As supostas virtudes terapêuticas do consumo moderado do álcool resumem-se em redução do risco de moléstias coronárias, derrames e demência. Todavia, segundo os autores, esses efeitos dependem do perfil do consumidor que pode não ser bebedor, fazê-lo moderada ou abusivamente, terreno ainda pouco estudado.

TRATAMENTO

Existem poucos estudos que avaliem a eficiência dos diversos tratamentos para idosos alcoólatras. A terapia pode beneficiar e ajudar a reduzir o abuso. Tomar consciência do problema, permitiria ajudar muito a combater o vazio terapêutico existente no tratamento do alcoolismo entre os idosos. Uma das recomendações é a de internação para desintoxicação em pacientes com idade avançada. Outra alternativa são os grupos de apoio.

Neste contexto, a Igreja Batista Carioca e Novo Rumo Obras Sociais colocam à disposição dos interessados um projeto de grande relevância no tratamento do alcoolismo denominado “Celebrando a Recuperação”.

PREVENÇÃO

O tema do uso do álcool por idosos, deve ser redefinido com novos limites, novos critérios, diagnósticos mais precisos e novos instrumentos de prevenção e acompanhamento. Neste contexto, esperamos sensibilizar o Poder Legislativo a criar leis específicas para a terceira idade, atualizando o Estatuto do Idoso, proibindo a venda e o consumo de qualquer tipo de bebida alcoólica por maiores de 60 anos, a exemplo do que já é feito para os menores de 18 anos.


Fonte: Medicina Geriátrica

Idosos ficaram de fora dos programas de prevenção do abuso de álcool

O vício no álcool não arrasa apenas a vida da juventude brasileira. Os idosos, incluindo mulheres, também exageram no álcool e apresentam níveis de dependência tão altos quanto os dos jovens.

O problema é tão sério que duas pesquisas recém publicadas alertam para os riscos do alcoolismo na terceira idade. Os estudos mostram que no Brasil – diferentemente de outros locais do mundo – as pessoas que sobrevivem ao vício continuam fazendo das doses companhias (perigosas) para o resto da vida.

No caso das mulheres, atestou o levantamento feito com 1.145 idosos por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Ribeirão Preto , a parceria com o álcool depois dos 60 anos amplia em até oito vezes o desenvolvimento de doenças cognitivas (demência e Alzheimer). Os resultados estarão publicados na edição de abril da revista Alcoholism Clinical & Experimental Research.

Ressaca

A dependência do álcool faz parte da rotina de 8,2% dos idosos, concluiu o estudo da USP. Já na população em geral, mostram os dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 10% enfrentam problemas com a bebida, índices muito semelhantes aos encontrados nos mais velhos.

"Ainda que os homens com mais de 60 anos continuem apresentando maior prevalência de uso pesado de álcool (17,4%) também foi muito significativa a presença das idosas nestas estatísticas (3%)", afirmou Cássio Bottino, coordenador do programa de Terceira Idade do Instituto de Psiquiatria da USP e um dos autores do estudo.

Outra pesquisa que também confirma a prevalência do alcoolismo na população que já passou da casa dos 60 anos acaba de ser divulgada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A incidência numérica fica em torno de 10% em qualquer grupo etário (18 a 25 anos; 26 a 45; 45 a 60; e mais de 60).

“No restante do mundo, em especial nos países desenvolvidos, o padrão de consumo de álcool diminui muito depois dos 50 anos, por questões comportamentais principalmente. No Brasil, entretanto, os níveis são alarmantes em qualquer faixa-etária”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, autor do estudo feito com 2.346 pessoas com mais de 18 anos, pesquisadas em 143 cidades brasileiras.

Entre os homens, mostram os dados da Unifesp, 28% bebem em quantidade que já ameaça a saúde (mais de duas vezes por semana) e 11% são comprovadamente dependentes. As mulheres somam 11% no primeiro grupo e 2% no segundo. Apesar da desvantagem numérica com o universo masculino, Laranjeira afirma que a preocupação é semelhante em ambos os sexos.

“Primeiro porque saber que uma em cada dez mulheres bebe de forma não saudável já é alarmante”, afirma. “Outro motivo é que dados preliminares de uma pesquisa que estamos fazendo com adolescentes mostram que as meninas já bebem mais do que os meninos. Isso indica que no intervalo de uma geração, elas já avançaram nas estatísticas.”

Amy Winehouse, Britney Spears, Renatinha e Heleninha Roitman

Os dados mais atualizados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) – divulgados em 2005 – já mostravam que na adolescência, meninos e meninas consomem bebida alcoólica em quantidades semelhantes. Na faixa etária entre 12 e 15 anos, elas e eles apresentam índices de consumo em 5,6%.

É fato que tanto na ficção quanto na vida real, personagens femininas mais novas têm dado rosto para o alcoolismo. Musas teens como Amy Winehouse e Britney Spears são exemplos da dependência antes mesmo de completarem 30 anos.

Na atual trama da Rede Globo, Viver a Vida, Renatinha (interpretada por Bárbara Paz), é um exemplo do vício precoce no álcool. Em 1988, mesmo enredo foi vivido por Heleninha Roitman (Renata Sorrah), na também global Vale Tudo.

A novidade no cenário etílico, endossada pelas pesquisas, é que os dramas reais das jovens alcoólatras também são enfrentados pelas mulheres mais velhas e idosas. “Tanto a pesquisa da USP quanto a da Unifesp mostraram que uma nova geração de idosos, que tem maior liberdade para vários tipos de comportamentos, pode estar retratada pelos altos índices de alcoolismo”, afirmou o pesquisador do assunto do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) e também professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Jerson Laks.

Perto dos bares e longe dos programas de saúde

Os motivos para a manutenção da dependência mesmo depois da chegada da velhice ainda não foram estudados, mas as hipóteses traçadas pelos especialistas caminham entre a genética e as falhas nos programas públicos de saúde.

Ronaldo Laranjeira, o pesquisador da Unifesp, acredita que a influência das propagandas no consumo exagerado de bebidas alcoólicas interfere nos hábitos de qualquer idade, agravada pelo acesso fácil ao produto. Qualquer um compra bebida em qualquer lugar.

“Outro fator é que não há tratamento eficiente na rede pública. Sendo assim, a pessoa não recebe a atenção adequada quando os sintomas do álcool começam a aparecer (entre os 45 e 50 anos) e continuam convivendo com as sequelas com o passar da idade”, diz Laranjeira.

Já o especialista Jerson Laks cita as transformações comportamentais e as questões genéticas. Os idosos foram incentivados a sair, passear, dançar e, no entanto, ficaram à margem dos programas preventivos tanto de doenças sexualmente transmissíveis quanto do uso de álcool e drogas.

“Muitos acreditam que beberam a vida e inteira e não precisam de tratamento depois que a idade chegou. Acreditam nos versos da marchinha carnavalesca de que ‘bebem sim e vão vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo”, completa ele. “Temos que ressaltar ainda a possível influência genética. Os genes relacionados ao alcoolismo podem interferir tanto nos mais jovens, quanto nos mais velhos, quando estes sobrevivem ao vício.”

Fonte: Medicina Geriátrica

Consumo de álcool e risco de demência

A demência se tornará um dos maiores desafios do próximo século, principalmente devido à enorme demanda que impõe aos serviços de saúde. Atualmente, observa-se que o risco de desenvolvimento de demência tem sido associado ao uso excessivo de álcool, possivelmente devido aos efeitos neurotóxicos dessa substância.

Em função da China ter despontado como importante centro de produção e uso de álcool, um estudo prospectivo foi desenvolvido para investigar a associação entre o uso de álcool e o desenvolvimento de demência no país, além de identificar a interferência de variáveis como faixa etária, gênero, nível de escolaridade e uso de tabaco sobre essa relação.

A presente pesquisa contou com a colaboração de 2632 participantes, de idade superior a 60 anos, selecionados aleatoriamente e acompanhados durante um período de 2 anos, do ano de 2001 a 2003.

Com fins diagnósticos, todos os participantes foram submetidos a testes neuropsicológicos, exame clínico e entrevista com familiar ou informante que pudesse declarar a respeito do funcionamento cognitivo do participante. Assim, entre os participantes, os casos positivos de demência puderam ser categorizados em 2 classes, ou seja, demência do tipo Alzheimer e do tipo vascular.

Durante a entrevista, os participantes também foram questionados a respeito do uso de bebidas alcoólicas, em termos do tipo (ex.: vinho, cerveja ou destilados), quantidade e freqüência de uso. Assim, foram divididos em 3 categorias de consumo, ou seja, não-uso, uso de leve a moderado e uso excessivo de álcool.

Quanto aos resultados, conforme os autores, na entrevista inicial, 41,2% dos participantes foram categorizados como não-usuários, 52,4% como de uso leve a moderado e 6,3% de uso excessivo de álcool. Entre os usuários de álcool, os destilados foram a bebida de escolha, seguidos pela cerveja e, finalmente, pelo vinho. Durante o acompanhamento do estudo, 121 casos de demência foram diagnosticados.

Corrigidas as contribuições dos fatores de confusão, em comparação a não-usuários, o beber moderado associou-se a um menor risco de desenvolvimento de demência, dentre os quais o sexo masculino apresentou níveis de incidência reduzidos.

Novamente em relação ao não-uso, o uso de leve a moderado de vinho e cerveja apresentaram, respectivamente, menor e maior risco ao desenvolvimento de demência. Porém, não houve outras diferenças de risco entre as demais categorias de uso de cerveja e tampouco surgiu para o uso de destilados.

Assim, conforme os autores, acredita-se que o uso de álcool, de leve a moderado, reduza o risco de incidência de demência. Talvez essa influência deva-se aos efeitos cardioprotetores associados ao uso de álcool, entre eles, a diminuição dos níveis séricos de lipídeos e lipoproteínas, diminuição da agregação plaquetária, do risco de oclusão arterial e, finalmente, do aumento do fluxo sanguíneo cerebral.

Porém, essa relação, embora existente, parece depender do tipo de bebida, necessitando de mais estudos para seu melhor esclarecimento.

Fonte: Medicina Geriátrica